quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Contido

Qual a medida correta? Qual a média?
Quando ser e quando se abster?
Ações desmedidas pedindo métricas se acumulam no fundo de um baú de "quases".
A força de uma possível mudança é barrada na porta pela insegurança.
E se eu for longe demais? E se eu disser o que não devia e dever explicações?
E se eu simplesmente não ligar e pensar que pra tudo há uma solução à frente?
De repente o certo é ser sem se questionar.
Mas outro "quase" não vai caber e o baú vai transbordar.

sábado, 22 de abril de 2017

Ser humano

Pra conter a asa, o desodorante.
Pra evitar chulé, o pó ou spray.
Pra desentortar os dentes, o aparelho.
Pra enxergar melhor, os óculos.
Pra bem cheirar, o perfume.
Pra entrevista de emprego, a barba aparada.
Pra ser respeitado, o sapato apertado.
Pra não atrasar, o relógio.
Pra não escabelar, o gel.
Pra não incomodar, o cabelo curto.
Pra não juntar sujeira, as unhas cortadas.
Pra socializar, o happy hour.
Pra dormir, o fim de semana.
Pra viver, as férias.

domingo, 13 de novembro de 2016

Problemas de primeiro mundo

Casa não é só cama.
Casa não é só chegar, se atirar e pronto, amanhã é outro dia, tudo de novo, é sair, bater a porta e tchau.
Não.
Casa é mais, é muito e pede como tal e também pedindo é igualmente ignorada.
"Nossa" casa normalmente não é muito nossa.
A rotina nos afasta de todos mas principalmente da casa.
Tudo vira um jogo de tempo, tempo a ganhar ou não perder e quem perde é a casa ou,  no caso, nós mesmos.
Falo por mim, não quero chegar e lavar a louça, varrer, limpar banheiro.
Não quero chegar e cozinhar, tô cansado, vai fazer sujeira, vou ter que limpar depois.
O chuveiro está pingando, não tem problema, eu deixo um balde ali, depois despejo no vaso.
Tudo se estende, nada se conserta.
E então, quando de fato tudo vira um caos, chamo alguém que limpe pra mim, que faça o trabalho "sujo".
Chamo um encanador que ajeite, não vou aprender a fazer isso podendo pagar.
Por que vou cozinhar se posso pedir comida? Rapidinho, chega quentinha, como e tá tudo certo.
Tudo pra que eu não perca meu tempo enquanto estiver em casa.
Pra que eu possa descansar apropriadamente, assistir alguma coisa que me deixe feliz, ler algo nesse tempo vago, aprender alguma coisa que me interesse.

Nesse ponto a cegueira já avançou pra onde queria. A casa não é nossa, a casa é só um endereço mas não é o que nós somos, é um lugar quase estranho. Fazer o básico não nos torna pertencentes e assim não vemos que a casa é como um ser vivo que se estende à gente, que necessita de tudo tanto quanto nós mesmos. Ignorar a casa é ignorar-mo-nos porque não chegamos ao ponto do questionamento do porquê não temos tempo pra casa. Não nos perguntamos por que faz tanto tempo que esse chuveiro está pingando. Só queremos soluções, como querem da gente quando não estamos em casa. Não interessa quanto isso vai custar, interessa que esteja pronto a tempo pra salvar um tempo e gerar dinheiro pra fugir da casa pra um lugar que não seja casa e que não tenha que ser limpo por mim e assim me fazer feliz com outras coisas que vejo todo mundo sendo.

Essa vida que levamos pode ser traduzida como uma sala com uma porta. Nos é ensinado que ao conseguirmos passar por essa porta seremos felizes. Então, fazemos de tudo para abri-la, mas quando entramos nesse novo lugar, percebemos que ele é menor que o anterior e não tem nada além de outra porta. Agora já sabemos o que fazer: abrir a porta. Novamente dispendemos o esforço que for pra abrir a porta e quando finalmente conseguimos, nos deparamos com um lugar muito semelhante ao anterior, porém, menor. Desconfiamos, mas nos dizem que é menor porque poucos chegam até aqui e que a felicidade já está logo ali, depois da próxima porta. A essa altura, as limitações físicas do lugar já começam a incomodar um pouco mas a gente segue. Depois da próxima porta, nenhuma novidade, outra sala menor com outra porta. O tamanho da sala já nos faz andar curvados, cansados de tanto abrirmos portas mas cada vez mais esperançosos pelo que nos espera do outro lado da porta e cada vez mais orgulhosos de termos chegado tão longe, onde tão poucos chegam. Por fim, morreremos espremidos e fatigados, exaustos, perdidos, sem nada de fato senão o orgulho do novo lugar raro e da esperança do logo ali.

domingo, 10 de julho de 2016

Acordado

Nada me sacia quando o tempo é meu.
O vento vaga, a luz apaga mas os olhos não.
Remo a favor da informação, quero acompanhá-la,
mas não consigo entender sequer um movimento seu.
Enquanto a ansiedade me domina, sou devagar devorado.
Não sei o que fazer diante do todo, sou um tolo engarrafado.
Logo um novo dia amanhece e eu sem nada ter feito me ajeito e parto.
Instantaneamente tudo volta e eu tudo quero pra uma próxima chance fazer direito, direto.
Depois de um tempo perdi a habilidade de aproveitar o tempo, de sentir e aceitar que ele se vá.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Nosso Norte é a Morte

Um lodo putrefato escorre da boca de alguém que ri e grita a morte do outro como prêmio.
Um ódio sem receio sai da ponta do dedo que aponta.
Nos olhos o reflexo do sangue tão esperado, que jorra e faz poça.
A satisfação de não enxergar qualquer semelhança no outro, de ser e sentir superior.
A paz comprada com sangue humano.
O prazer de comprar vira esporte, quer lei, quer permitir, quer chamar de justiça.
Com o tempo, quer que apareçam mais, pra reforçar o dito, pra matar, pra saborear.
Tudo vira vício e a vida vira nada.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Ponteiro

Foi-se o tempo, agora é fato.
Cortou como foice, agora desafeto.
A foto é um coice onde a cor esmaece.
A face era prece, a pressa era posse, a praça era medo.
O cabelo ralo, a carta, o quarto, agora tropeço.
A data é mais uma, a roupa ainda suja e eu já não pareço.
Por fim, por mim privado vou embora mais cedo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Soulspiro

I'm not ready to write or desire.
To look or close my eyes.
To find me a beast and accept it.
To cry in front of you.
To be weak and at the same time to be strong.
I'm just not ready,
yet.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Iniciação

Logo após pegar no sono sou acordado por um barulho familiar.
Ainda pensando no rápido sonho que se esvaía da memória, senti as pisadas no andar de cima ficarem cada vez mais fortes.
Era a segunda vez essa semana, mas dessa vez foi diferente, eu conseguia sentir como se participasse.
No teto, eu conseguia enxergar os pés das crianças andando em círculos como se em volta de um desenho.
Os gritos e conversas em uma língua distinta deixavam clara a presença de duas crianças e um adulto.
O ritual já devia ter começado há alguns minutos quando pude ver, duas crianças pintadas com listas brancas ao longo do corpo e no rosto levantando e baixando os braços enquanto entoavam uma cantiga.
Não me perceberam, não precisava, eu agora era um deles, entrei na dança e cantei como se eu de tudo soubesse.
Tiraram meu sangue e ofereceram à uma entidade, eu assisti minha mão ensanguentada enquanto minhas pálpebras cobriam meus olhos.

...

No dia seguinte, saindo para o trabalho, encontrei as crianças e o pai que as levava para a escola.
Cumprimentei como de costume e seguimos o dia.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Não!

- Está zangado comigo, Dom Juan? - perguntei, quando ele voltou. Pareceu ficar espantado com a minha pergunta. 
- Não! Nunca me zango! Nenhum ser humano pode fazer alguma coisa tão importante que mereça isso. A gente se zanga com as pessoas quando acha que seus atos são importantes. Não sinto mais isso.

A Erva do Diabo - Carlos Castaneda 
 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Chave Mestra

Divagando dia desses, me deparei com a lembrança de uma sensação estranha que eu costumava ter.
Acontecia sempre que eu entrava na casa de outras pessoas pela primeira vez.
Era um misto de tontura que dava a sensação de estar perdido por alguns segundos.
O interessante é que isso não acontecia em outros novos lugares senão dentro das casas dos outros.

Após lembrar da sensação cheguei à breve conclusão de que isso tudo fez parte da minha infância e que já não acontecia mais.
Porém, quando procurei uma situação atual onde isso não aconteceu, não consegui lembrar de nenhuma.
Percebi que toda essa divagação não se tratava da sensação que eu tinha, mas sim do fato de eu não entrar mais na casa dos outros.
E de fato, as relações que eu fui criando depois da infância foram se tornando cada vez mais superficiais ao ponto de se limitarem a um bar ou a uma conversa em um terceiro lugar que não seja a minha ou a outra casa.
A casa foi se tornando um lugar sagrado, selado e distante.

Enquanto escrevia lembrei de algumas situações em que entrei em outras casas mesmo depois de velho, foram poucas mas tenho a impressão de que a sensação seguiu acontecendo.
Não consigo chegar à conclusão de se isso tudo sou eu ou os outros.
Talvez seja tudo coisa da minha cabeça e da minha infância.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mergulho

Imersa num mundo só dela, ela dorme.
Fico intrigado em como suas pernas ganham estranhas posições, como se no fundo fosse tudo uma grande dança.
Ela é a bailarina, a estrela da peça.
Sua respiração profunda e serena me faz esquecer todo o resto e como o açúcar para a formiga, sou levado a ficar ao seu lado aguardando e observando encantado.
Dentre tantas posições, em nenhuma delas ela deixa de ser ela, consistente, mantém mesmo no mar mais profundo suas visões e crenças.
Se ao menos eu pudesse entrar e ver o que lá dentro acontece...
nesse mundo criado só pra ela, eu sou um espectador das sombras, as sombras mais lindas e encantadoras.
Pra mim é o suficiente, sei que quando acordar será toda minha outra vez.
No fim do espetáculo, ganho um rosto amassado e uma voz arrastada que grita meu nome.
Isso só pode ser um sonho.

domingo, 22 de novembro de 2015

Label

Se forem ler no rótulo da minha embalagem, lá vai dizer assim:
Homem, branco, heterossexual, alegretense, gaúcho, brasileiro, mestre em ciência da computação, toca violão.
Talvez nem diga que eu toque violão.
O problema disso é que além de me resumir a um máximo de oito características, essas mesmas características criam uma expectativa muito maior do que sou.

Comecemos pelo primeiro aspecto, o homem com h maiúsculo. Por ser homem, carrego toda uma definição pronta de que tudo posso e nada temo, sou desbravador e conquistador. Isso engloba clássicas definições relacionadas a relacionamentos, por exemplo, pago a conta, tomo decisões, mando na casa, não dou a mínima para detalhes e sim problemas globais que realmente importam. A sensibilidade não existe em mim, logo, não vão me encontrar chorando por aí ou me sentindo psicologicamente enfraquecido, isso não existe e é coisa pra mulher.

Ser branco simplesmente me faz ser parte da classe "superior", que não é vista como bandido no primeiro instante. Ainda por cima, sou um pouco loiro, o que me encaixa num nível acima de qualquer suspeita. Não roubo, cheiro bem e tenho bons costumes, de mim não esperam qualquer comportamento alterado, sou discreto e gentil, um anjinho!

Heterossexual já é muito ligado a ser homem mas também garante a mim privilégios de não ser um pervertido homossexual. Sou comum como todos, gosto do sexo oposto e estou pronto pra ter uma família como reza a cartilha. Ser hetero me garantiu ter bem menos problemas no colégio e na sociedade em geral, ao mesmo tempo que, para manter esse título, preciso andar na linha, para qualquer instabilidade avistada vai ter sempre alguém pra gritar "bixa!". Por isso, sou direto, gosto é de mulher, porra, não me venham com esses papos de arte, artesanato e minúcias sentimentais, o que me interessa é mulher, futebol e rock 'n' roll, não gosto de nada colorido que possa ser confundido com esses "viadinhos".

Ser alegretense e gaúcho remete a quase a mesma coisa, a questão de Alegrete apenas me garante que sou mais gaúcho que o resto dos gaúchos e que chimarrão e churrasco eu sei fazer de olhos fechados. Provavelmente possa acrescentar que toda e qualquer lida do campo eu domino com facilidade, fui criado em cima dos cavalos, troteando por aí e dando gritos de "kibibiahuhul!". Ser gaúcho me garante ser superior às pessoas de outros estados do Brasil, claro, sou mais educado que qualquer paulista, mais inteligente que qualquer nordestino, mais bonito que todo mundo. Falando nisso, o RS tem as mulheres mais lindas, posso usar isso como argumento finalizador de qualquer discussão. Resumindo, por nascer aqui sou praticamente perfeito, defendo minhas tradições com unhas e dentes e amo este estado mesmo que ele seja uma merda.

Por outro lado, ser brasileiro, em contextos mais amplos, me dá uma desenvoltura maior, posso jogar com o jeitinho brasileiro, sou malandro, amo futebol e bunda, cachaça e outras palavras que os gringos aprendem para vir ao Brasil. Amo os EUA e, na verdade, qualquer outro país desenvolvido, porque qualquer um consegue ser melhor que o Brasil. Quero sair daqui o quanto antes, isso aqui não presta, desconheço essa gente que se chama brasileiro (isso engloba eu ser branco) e que se dizem meus conterrâneos. Por fim, amo praia, carnaval e cerveja e voto ou no PT ou no PSDB.

Ser mestre em ciência da computação, honestamente, é o que mais me tem pesado, essa característica vem acompanhada de uma outra, sou doutorando. Ser doutorando me garante um status tremendo, tenho 24 anos e, pare pra pensar, sou foda. Ser mestre em computação e estar no doutorado me garante saber tudo relacionado a computação, logo, pode me perguntar o que quiser, eu vou saber. Isso me permite ser um pouco arrogante já que não é todo mundo que tem esse título. Agora sou conhecido com "sênior" e por isso minhas responsabilidades são maiores, estou sempre a frente do meu grupo representando a todos, logo, erros não são permitidos. Um dos meus serviços é fazer com que tudo pareça difícil, ou seja, tenho que manter a imagem de que para chegar no doutorado foi preciso esforço extremo, noites mal dormidas, olheiras e dedicação integral, afinal, tenho que valorizar o que tenho. Sendo assim, ser mestre em computação é uma dádiva, todos me olham diferente, sou claramente superior a todos e meu conhecimento é ilimitado, podem me cobrar o que quiserem, agora que sou mestre tudo posso e nada temo.

Cansei de escrever na verdade, isso não faz muito o tipo doutorando homem que é perseverante e não desiste de nada, mas cansei mesmo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Não, sim, tô, nada.

Incriminado o tempo vago
Gloriosa ausência de tempo
Ter o que fazer, não precisa gostar
Mascar o tempo amargo
Não prestar atenção ao vento

O tato já é desnecessário, no fim sentir o que seja já é errado.
Tudo se aparenta e o que se sente é afogado no fundo do poço.
Estou louco, desvairado, meus sentimentos têm colete salva-vidas.

Não há necessidade em temer o avanço da robótica, robôs já somos e dos perigosos.
E se isso parece engraçado, frágil e medíocre, devem ser seus olhos robóticos fazendo a leitura da tela, condenando qualquer fragilidade, qualquer fraqueza, qualquer sentimento.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Dever

Não há como fugir da sombra. Estando na luz, a sombra aparece e lá fica, onde vai, onde pisa, aqui, ali. Não há como deixar a sombra em algum lugar, dar para alguém cuidar e fugir, nunca mais ver. A sombra a mim está ligada. Quanto mais me exponho à luz, maior ela fica e vai me dominando e eu vou virando só sombra.
Tenho vontade de fugir da luz, me trancar em algum lugar onde não haja claridade. Mas nesse ponto percebo que perdi e que virei de fato o escuro por completo. Retiro o que disse, não digo nada, a sombra é maior que eu e carregá-la é a minha sina. Derrotado, aceito a condição de cada vez mais sombra ter e mais sombra ser.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Misleading

A vida é uma série de costumes globais e individuais.
Toda mudança é lenta e sem razão.
Priorizamos o que nos conforta, mais uma adaptação, um costume.
Consumo tudo mas não engulo mais nada.
O lugar não há, as pessoas não são, a vida não existe.

sábado, 3 de outubro de 2015

Pilantragem

Alta dose de ser, dizer "o prazer no ecxiste", decir lo que sea.
Quilos de industrializados correndo pelas minhas veias, dizendo o que penso e como penso.
Matando uma porcentagem da minha existência hoje tão frágil.
São rugas estas que avisto? São doces e salgados comprados à vista.
Um foda-se à existência causa um perigo à sobrevivência e o chocolate mais barato vai pro belly depois da janta.
Tudo já planejado na cultura do câncer.

Aquele abraço amargo num mar de doces.

domingo, 23 de agosto de 2015

Causo 3: O casulo enclausurado

Tudo que faço é irônico, é hipócrita.
Ajusto o alarme para às 7h15, mas nem quero acordar, nem quero sair.
Tomo banho e me desconcentro com preocupações relacionadas à minha imagem, tudo mentira, nem quero nem consigo ser diferente.
Perco tempo pensando no que tenho pra fazer, nas ocupações cotidianas, mas não sou eu, na verdade nem sei quem é.

De fato não ouço o que digo, não converso comigo.
Sou refém d'outro eu que me desmente em minha frente e me afirma do avesso.
Tropeço em tanta asneira, chego em casa e a alforria desejada vira piada das preocupações "coerentes".
Quero mudar o mundo lendo uma série de livros entre um dia e outro, mas nada se consegue debaixo da carapaça do medo.
Pra sair e ver o sol não é só simplesmente abrir a janela.
Tem que quebrá-la e fazê-la ver que deveria estar sempre aberta.

domingo, 16 de agosto de 2015

No mar li "dad".

A loucura surge da comparação direta entre uma determinada ação e uma lista de ações pré-definidas.
A partir da não existência, de uma ação executada, na lista, tem-se o início de um indício de loucura.
Confirmar tal indício é reproduzir uma sequência de ações ausentes na lista.
Esta lista que divide a normalidade da loucura é definida a partir de uma série de falsas certezas obtidas ao longo de um período x e que indicam o que é correto fazer dentro de um determinado contexto.
Por exemplo, dado que você está numa pista de corrida, devidamente "uniformizado" com calção e calçado, correr é uma ação perfeitamente aceitável.
Ora, faz bem para a saúde correr, faz pulsar o coração, ativa o corpo.
Todavia, se você estiver sentado em uma mesa junto com seus familiares e há comida sendo servida, sair correndo é totalmente inaceitável, uma falta de respeito, uma loucura.
Veja bem, as pessoas estão ali para passar um tempo com você, querem sua atenção, querem lhe dar atenção e carinho, como assim sair correndo?

Bom, sem sombra de dúvidas esta lista de ações só quer o nosso bem, questioná-la ou agir em desacordo com ela é uma completa idiotice.
Pessoas estudadas devem ter passado anos estudando todas as possibilidades, os contextos, as situações, as pessoas e suas subjetividades para enfim definir o que é certo e melhor.
Graças a eles hoje vivemos em paz, regendo uma normalidade sobre nossa vida, a normalidade que nos liberta para sentirmos tudo e aproveitarmos de uma vida sem erros, porque o erro é o que corrói nossa sociedade.
Por que errar se já está tudo escrito, se a fórmula já foi feita, testada e aprovada?
Cabe a nós respeitarmos esse grandioso trabalho universalizador de ações e viver conforme a norma, sem esquecer de denunciar e eliminar da sociedade todo indivíduo que cometa loucuras totalmente sem sentido.

domingo, 12 de julho de 2015

O pós, tu se atrai?

Livrai-me do que é livre por direito.
Não compensa ser presença de corpo, que pensa e perde a vivência.

Não quero tudo ao seu lugar mas quero tudo ao meu alcance.
Quero poder mas não quero lutar.
Quero saber mas não quero o tempo a perder.
Quero ficar mas não quero dizer.

O tempo suave e lento me despe da carcaça já amarelada.
Toma conta de tirar cada detalhe e me fazer um todo novo.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Então, às boas vindas.

A chuva recomeça agitando o povo.
Errar é humano.
A chuva não cai nessa, acerta, e é na cabeça.

É cansativo ser todos os dias.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A melhor banda

Quanta angústia dá assistir a um pedaço de mim que hoje já não me pertence mas que sempre vai pertencer à lembrança.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Quem sou eu?

Na partícula ínfima desse universo de coisas, quem sou eu?
Poderia dizer de cara, metade a mãe, metade o pai.
Mas estaria sendo ingênuo.
Faço um adendo, mãe, pai e amigos.
Bom, mas e aquele filme que me influenciou a ser assim?
E mais, aquelas pessoas na rua que me fizeram refletir sobre o que quer que seja e que acredito agora?
Ok, sou mãe, pai, amigos, filmes e gentes.
Certo, mas e cadê eu nisso tudo?

Acabo por acreditar ser a tendência a ser influenciado por A ou B, mas mesmo essa crença pode ter origem em outras coisas ou pessoas.
Tornando a coisa formal, digamos que o "eu" de agora seja x, o tempo seja t e as informações sejam i.
Para saber quem sou hoje, o cálculo seria:



Então fica fácil, sou o .

quarta-feira, 25 de março de 2015

Abre extrato

A palavra "vaga" é substantivo e verbo.
"Ele vaga na vaga, acha nada.
Divaga."

Na encruzilhada da palavra só parece possível um caminho, mas o que é fisicamente impossível tem vaga aberta na estrada da escrita, ando nos dois em tempos iguais.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Aspargo

Agora espero austero o contorno do relógio. Nas marcas o ponteiro, na memória uma história.
O ângulo de noventa graus reinventa o anseio por novos tempos.

A relva calma enraivece a alma alucinada, que nada vê, agitada quer o fim dos seus opostos, quer um mundo só, mudo aos diferentes.

"Out of the ashes of my youth I rise a man."

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Comfortably Numb

Tudo cai, culpa da gravidade dos problemas. Agrava a gravidez de uma nova cultura de cultos infantis. Eu idoso não caio nessa, escorrego é na bagunça no caminho deixada.

domingo, 14 de dezembro de 2014

"Quando avistei ao longe o mar, ali fiquei parada a olhar"

Song to Sing.

Suplico salpicão

My skin floats and I can not handle this because all I see is stranger for me.
These kings and queens, my skin, and everything stops suddenly.
Suffering for something I do not know, I walk in my mind in fast steps, carrying with me all that plastic feeling.
May I return?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

All-in-one

Chovia e eu, de ônibus, voltava pra casa. Os vidros fechados causavam calor, então abri um tanto da janela mais próxima a mim. No mesmo instante vi que o vento não pegava em mim, ia direto para uma senhora no banco de trás. Pensei que tudo bem, afinal, calor ela também passava, porém, logo percebi que assim como o vento, a chuva, mesmo fraca, poderia estar chegando até essa tal senhora. Então virei para trás e perguntei se não estava "chovendo" nela. Ela disse que não e seguimos viagem.

A questão aqui é a seguinte, a senhora não sou eu, mas sente do mesmo jeito. Não sei expressar mas se um fosse todos, sentindo como todos, estaria feito! No momento que nos dividimos, um abismo se faz real e não me interessa mais tua situação, se bem ou mal. Isso me soa tão simples que chega a ser ridículo, mas já tomamos rumos em carros desgovernados, desenhados sem freio pra que nada obstrua o fim.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Náufrago

Estou só, em meio a essas vozes alegres e sensatas. Todos esses sujeitos passam seu tempo se explicando, reconhecendo com satisfação que têm as mesmas opiniões. Deus meu, que importância dão a pensar todos juntos  as mesmas coisas.

Jean Paul Sartre - A náusea 

domingo, 9 de novembro de 2014

Cabo da boa esperança

A chuva repentina repetia uma rotina cansada de repente, dependente de um mesmo dia que repetia e repetia.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Parquet

Saudade de mim, assim como eu era
assim, sem eira nem beira.
Do tempo que não havia tempo nem hora.
Eu vagava evasivo e voltava sem aviso.

Voltei pra mim, pra quê?

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Dois barcos

Falta óleo, sobra bolha nos pés.
Nós, péssimos olhos, vivendo nessa bolha sem pé nem cabeça.
Não te vejo porque já não te toco, nem sinto.
Caminho e o caminho nubla, corro e a chuva inunda.
Só penso em mim, porque é o tempo que tenho pra fazer.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Adocica, meu amor.

Entre uma tosse e um espirro me encontrei doente, mas doente mesmo.
Entre um corredor que faço jus e corro e o e-mail não respondido, estou doente.
Entre o despertador e a ausência de qualquer sentimento ao passar pela vida, estou débil.
O sintoma mais claro pode se ver na menor atitude que eu faça.
Fica em mim, na minha não distração ou no excesso dela.
Tudo virou uma grande ampulheta e todo tempo eu declaro como acabando, como quem ainda grita "Jesus está voltando".
Com os olhos vidrados e a mente acelerada, acordo e sigo dormindo pra vida.
Me interessa apenas aquilo que eu não sei, aquilo que eu tenho por fazer.
Mas a doença é muito mais esperta que eu.
De forma que eu não chegue ao ponto de não ter o que fazer, ela me sabota e me faz fingir fazer pra não fazer e fazendo assim, não faço.
O tempo encurta e quando vejo chega a hora, o cabelo coça e eu me deixo entregue ao desespero.
Ignoro a deus se me chamar, de forma que eu possa acabar o que devo.
Não há cura além de um bom tapa na cara, de forma que a doença se vale da nossa educação e ninguém faz isso por mim.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ser humanaomenos

Pra escapar da chuva, um rapaz corria pela calçada. Ao se aproximar de um outro, que não dava por conta da chuva e caminhava vagarosamente, o esforço de correr fez com que o primeiro rapaz peidasse de forma sonoramente audível. O segundo rapaz vira, ri e pergunta: tu peidou? No que o outro responde: sim, sou humano, mas não conta pra ninguém.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Campo em mi? Nado.

Adia mais um dia do tal no qual o dia vai ser.
É noite, é dia, adia, adia, há dia em que nada mais há.
E eu na fome desse sal distante demais do mar.
Mastigado pelo tanto que falta, não me dei por vencido.
Cada dia travo com bolas na trave o entrave da estância
que é meu lar.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Ctrl + s

No pensamento transeunte da cabeça desolada, todo distante é bom, todo impossível é divino.
Viajo até lá e me esforço pra chegar, fruto da pura esperança e ilusão.
Porque quando tudo eu chego, chega junto comigo a verdade da falsa impressão.
Não ter é pensar que quando tinha só o bem existia, sendo que, assim como tudo, o mal fazia parte.
Retorno ciente, na corrente do mar, com a cabeça na direção, pronta pra "disrecionar" de novo e no primeiro tombo cantar valsas ao que tinha e "perdi" mais uma vez.

domingo, 22 de junho de 2014

Piso nas pegadas alheias

E de repente virei meu pai, como quem vira vinho tinto na camisa branca.
Não é fantástico isso? De um dia para o outro me percebi, olhei pra mim.
Na procura de uma brecha de solidão, de quietude, me vi meu pai.
Na frieza quanto ao resto quando o que importa é o eu, vi ele em mim.
Na manhã de domingo em que se espera que ninguém acorde.
Que o barulho não seja feito e que todos permaneçam em silêncio.
Não por mal, mas só por alguns instantes, para que eu me sinta só.
Para que eu me sinta único e meu, para que eu me sinta meu pai.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Erase

E a reza rasa tomou conta do meu ser
Seremos todos passado?
Ou apenas amassados no roupeiro?
Esquecidos em cima dos armários
apagados pelo escuro.
Questiono como as coisas somem
simples e rápidas
Um dia nossos corpos boiarão no mar do esquecimento, para que todos vejam e fujam com os olhos.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Resto em pizza

E então eu morri, com dois tiros no peito enquanto seguia pela Getúlio em direção à Barão. Nem sei de onde vieram, quais intenções tinham e os motivos pelos quais foram disparados. Não lembro, lembro só do que aconteceu antes disso, da situação que me abordava no caminho. De cabeça cheia e com a chuva aliada, não via nada, só caminhava querendo chegar em casa. O ônibus havia demorado mais que o comum pra chegar, talvez por conta da chuva, não sei. Sei que estava preocupado, estado que se mantem inalterado há um bom tempo. Tenho que escrever minha dissertação, entregar os trabalhos, montar uma apresentação, comer, comprar pão. Não deu tempo nem de chegar na padaria, me livrei de tudo antes, e agora que acabou parece tudo normal, tudo acaba quando a gente morre. Morrer é um soco tão grande na vida que logo de início a gente não percebe e segue preocupado. Acho que vou ter que morrer da morte pra ver se os fantasmas da vida finalmente me deixam em paz.

sábado, 31 de maio de 2014

Situação I

Olhei pela janela,
o vento passava e eu não via,
a vida vivia e eu não olhava,
o tempo corria mas não me ultrapassava.
Todo o resto era suspenso na imagem da imaginação,
na verdade estamos sós preenchidos

TUDO MENTIRA!

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Quem tem tempo que tempere

E eu parei, estacionei em vaga proibida, desci pra cuidar de umas coisas e perdi o carro de vista.
Volto, ainda meio zonzo, ainda que não bem volte, preciso esquentar as baterias há muito paradas.
No entanto, trago pro carro muitas coisas, interessantes ou não, são coisas.
.
.
.
Será que eu perdi a mão e não sei mais dirigir? Ou só cresci e não caibo mais no carro?
O tem podirá?

terça-feira, 22 de abril de 2014

Nexus breves

O vento sopra colheres de sopa no chá das cinco remarcado para às 18h. Quem faz, quem diz, quem mente ou desmente. A vida, semente, o chão doente, o dedo no dente, a vida ferida. Quanto papo pra um só pescoço, coço e roço, num retosso sem fim, assim como quando duvidas de mim.
Tempo rei do penhasco em que estávamos, pulei junto achando tudo lindo.

domingo, 13 de abril de 2014

Publicar

O silêncio insosso me acompanha na volta, interrompido pelos passos sem vontade. O caminho já é conhecido mas cada vez encontro algo novo, uma cor na escuridão que faz. A luz é fraca e a visão é desfocada, é sempre assim, é tudo igual, apesar do frio que começa a dar as caras. Sofro por não ter vontade de fazer coisas das quais não sei se tenho querer.


A Fuga

A fuga afogou mais um
no mar que nos cerca
Fugiu humilde, comum

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Abraços

Embaça a visão do sentido, ou da direção, no contraste contínuo com a realidade, tudo isso deixa de ser verdade. O vazio desprende da boca e cai na rede, chacoalhando que nem peixe, incomodando os já presos pela mesma. Assim me retiro enquanto há tempo, tempo pra fechar os olhos na direção da bagunça organizada.

domingo, 9 de março de 2014

Donos doloso

O cômodo incômodo nem culpa tem, tem quem dele não sai.
O cômodo é de ninguém, mas a uns pertence mais.
O cômodo quando é meu me pertence também e eu me sinto dono d'algo.

Não falo nem clamo pelo que não me pertence.
Também não quero nem amo algo que não pense.
Canso de não olhar e não falar e me sentir estranho por no cômodo estar.
Como se não fosse meu também, como de fato não é.

Eu invasor da casa alheia, estorvo, areia.
Que se calem e engulam seus pratos e seus conceitos fechados.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Só -. .- ---  .-.. . .. .-  .- ...  . -. - .-. . .-.. .. -. .... .- ...
Um monte de coisas escritas em branco pra significar outras.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Fogo

Fujo de mim, fujo de ti, fujo da gente, só pra me encontrar, num egoismo desesperado, e falho, falho sempre, falho porque não encontro sequer sombra e se quer saber acho que nem quero encontrar. Quero fugir e só, não é de hoje, nem é uma ideia passageira que também está em fuga.

Draw a picture of the world we are.

Como não poderia se não podo o que posso? Meus olhos não tocam o das pessoas, além do mais, uso óculos de sol, pra evitar maior contato. Minhas mãos resvalam e encostam na desconhecida, a sensação é suspensa nos milésimos de segundo em que, sem olhar pra ela, retiro a mão retomando à posição inicial. Me pergunto se perguntaria algo a alguém, mas antes que eu pense, três pensamentos correm e me alcançam, argumentando para que desista.

Ando cansando fácil de andar cansado.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Tanto tenho tempo quanto pranto.

Reclamo porque tenho, se não tivesse reclamaria por não ter.
Tenho porque quero, quero porque quis, tenho porque quis.
Quis porque todo mundo tem que querer algo, logo, não quis, quiseram.
Reclamo porque não quis e me deixei querer pelo querer dos outros e agora tenho o que reclamo e reclamo porque tenho.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Ad infinitum com cobertura de caramelo, por favor.

Uns dias acordo e pra nada presto, nada quero. Olho pro nada e nada me atrai, me cai bem não querer nem gostar.
Me irrito e é a cobrança a dona da "irritância", é você, isso, tu! Todo mundo vira inimigo da minha paciência e a desistência parece perfeita.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A coruja dá bom dia.

A solidão como destino, a porta a ser aberta, a parte em partes correta.
Já não se sabe o que sopra, mas é um vento certo que vem, que venta.
Há tanto o óbvio se mostra e eu escondo o rosto entre as mãos incertas.

Esquece, mudei de ideia.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Déjà vida

Novela das 8 ou 9, mudam os personagens a história é a mesma, mas não dizem que a arte imita a vida? Ou é o contrário? Independente, fazendo jus à primeira afirmativa, "a arte imita a vida", não diria que ela está errada. Não é de hoje que vejo as mesmas pessoas em corpos diferentes, e não, não sou médium, ninguém morreu pra que isso acontecesse. O fato é que em cada "fase" da vida os mesmos personagens me acompanham apenas trocando de corpos. O cenário muda, o contexto é diferente, mas no fundo, tudo igual, o mesmo roteiro. Como na obra do Nietzsche, Assim falou Zaratustra, que li numa versão mangá, onde ele traz a ideia do Eterno Retorno. No caso atual em que percebo, vejo que meu Eterno Retorno acontece dentro de uma mesma vida, sem a necessidade de morrer, e vai se repetindo a cada passo novo. O interessante e talvez o ponto onde Nietzsche queria chegar, é que, percebendo isso, é possível lidar com a mesma situação de forma diferente, modificando o desfecho. Nada muito fácil, de fato, uma vez que a tendência de repetir tudo é imensa. Mas quem sabe um dia eu vire um Além-homem, o que na verdade não gostaria. Por ora, durmo como antes fiz e como repetirei amanhã.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tudo depende do ponto que modifica a frase;

Cabes baixo aqui, entre o meu querer e o meu poder.
A reflexão odeia peças de teatro e por isso não tem timing pra aparecer em cena, vem quando menos se espera. Quando vi, no banheiro, era ela, toda toda, me mostrando algo que eu ainda não tinha percebido. Fui ver e era verdade, com tapinhas no rosto me contou que sou dependente de problemas. Relutei e disse "peraí, não é bem assim", mas ela riu e me fez pensar, mostrou por A mais B que minha "infelicidade" fazia sentido nenhum. Eu invento as coisas pra poder viver sempre do mesmo jeito, deve ser comodismo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Se cá há, cá é.

O vazio vazou, rolou pelo chão fugindo por debaixo da porta. Eu, que já sabia da fuga de antemão, avisei tão logo, Pode demorar, mas sei que tu voltas e quando fizeres, traga pão e café.

Não pensa, não fala e sequer respira, preenchi essas ausências encharcando de sentimento tal objeto. O ser humano é um vício por significados.

Vá de reto, meu erro! Dobre a esquerda e siga por mais três quadras, vai haver uma quitanda em frente a uma árvore volumosa, diga que te enviei, vão saber do que se trata. E por favor, quando vier visitar, ligue com antecedência.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Quem sois que não te vejo?

A maçã que oxida elucida coisa nenhuma, apenas reage enquanto ao meio. Mas se eu quisesse distinguir ela das outras, dizer dela que foi minha e a forma como ela se tornou ação minha? Bom, aí teríamos de dizer que também não foi por exato mal, deixei ali após algumas mordidas, nem tudo é válido de sempre lembrar. Quando olhei novamente a encontrei assim, por maior conhecimento que eu tivesse, não poderia ter a certeza que assim ficaria e que não me deixaria mais morder.
A maçã que oxida elucida o vão do perder, indica a distração que leva à mudança no ambiente, talvez até o momento exato. Essa maçã é exigente e quer ser sempre primeira, o descuido é digno de pena, perdeu, vá buscar outra.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bananas de Pijamas

Bactérias, estão por toda parte e se reproduzem numa velocidade absurda. Um dos lugares em que vejo isso acontecer é na garrafa que uso para colocar e tomar água. De um dia para o outro, estando tampada, ela acaba sendo foco da proliferação desenfreada. Isso me faz criar uma rotina diária, todo dia chego e levo a garrafa até a copa para lavar, coloco um pouco de água, chacoalho, chacoalho e largo. Básico. Dia desses, como outro qualquer, fui fazer o processo e comecei automaticamente, sem me policiar sobre nada. Pensando em outra coisa qualquer, não dei pela situação da minha cara ou se o que eu mexia eram os braços ou o corpo todo. No meio daquela situação fora de mim, sinto a presença de alguém às minhas costas e quando fui conferir, BINGO, lá estava uma aluna de mestrado. Meio que sem saber o que fazer e percebendo que eu estava me mexendo todo e com a língua um pouco para fora da boca, tentei manter a naturalidade. Olhei pra ela, ri bastante sem graça e dei o lugar para que ela usasse, tentando transformar aquela situação na coisa mais normal possível. Saí da copa e pronto, passou, não podia fazer mais nada.
Assim como as bactérias se reproduzem em alta velocidade, o pensamento não fica pra trás, comecei a germinar o óbvio. Por que razão teria eu de entrar numa fantasia enquanto havia outra pessoa próxima a mim? Por que eu simplesmente não segui livre fazendo o movimento que eu estivesse fazendo? Afinal, esse sou eu sendo natural. Qual é o problema com a minha naturalidade que não deve ser expressa aos outros? Essa vestimenta invisível que usamos sem nem perceber e que sem ela é como se andássemos nus faz com que tudo entre em outra realidade, uma realidade "desnatural". Me pergunto em que momento isso aconteceu, eu digo, em que momento viramos essas pessoas eternamente vestidas? E por que razão? Provavelmente seja a mesma razão pela qual usamos roupas, o natural ofende, o natural já não pertence ao ser humano.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sigo cego, ego, não nego.

A crítica ardente cortou mais uma generalização ao meio. Às cegas apalpou pontes de plástico e ligou pontos perdidos. Fez real uma inverdade, do conceito breve à completa definição.

Me pego sendo ignorante e às vezes ignoro.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Em fé lhe cidade

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
 Poesia completa de Alberto Caeiro - Fernando Pessoa

Hipérbole

O forno fez silêncio enquanto entravamos na cozinha, explodiu o caos, fez negra a prataria. No prado molhado da chuva, silêncio não conhece, a bicharada livre esconde o que eu dizia. O dito Odete disse, ou dito ou vão ficar copiando na hora do recreio. Receio ter me equivocado aqui, cavucado na falta do sentido exigido pelo cliente exigente.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sanciona o que te abandona.

O rosto em fade out se desfazendo ao longo dos dias entre a luz do sol e a do monitor. A rotina em fade in vem chegando mansa enquanto a sombra não alcança mais um dia quente. Por costume o chão já me tem e a falta de ventilador é só um detalhe, o suor que sai de mim corre livre em busca da liberdade. A cobrança sem valor financeiro se acomoda na cabeça fazendo com que o peso a ser equilibrado machuque e a dor acompanhe a passagem das semanas. A saudade é o manjericão dos dias, traz gosto ao alimento antes insosso.

A vida às vezes é esperar pelo "não sei o que", pelo ventilador, a cama, acácia, a casa arrumada, o fim.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Errói

Eu não gosto de heróis. De mitos, só os da Antiguidade. Não gosto porque não acredito, porque acho pobre, porque acho chato. Se de perto ninguém é normal, de perto ninguém é herói. Essa mania de mitificar gente, alçar fulano ou beltrano ao Olimpo porque supostamente fez algo sobre-humano, empata a vida. Faz com que os supostamente pobres mortais se sintam exatamente isso: pobres mortais. Ou losers, na expressão do que a cultura americana tem de pior.
Um ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante do que o mais celebrado herói.

A vida que ninguém vê - Eliane Brum

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Um drama indisposto

Vivo da distância entre mim e eu. Vivo vago, desapego, pego, largo. Vivo da distração dos ouvidos, vidas vindas da chuva. Vivo do vazio que dá a falta, que falta faz. Vivo da saudade e do não alcançar, vivo do quase viver, quase chegar. Não sei viver enfim. Não sei chegar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O cometa passou

O barulho fervilha nos ouvidos alheios, atiçando os até então adormecidos sentidos de sobrevivência. Tão logo é dado início, já se faz generalizado. O banquete está pronto, um festival de latas abrindo, pacotes estalando e ele, o salgadinho croc croc regendo toda barulheira. Os dentes ao trabalho não saem do tom e marcham pela madrugada, triturando o que lhes vier pela frente.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Cativeiro

O Zoológico de Sapucaia do Sul abrigou um dia um macaco chamado Alemão. Em um domingo de sol, Alemão conseguiu abrir o cadeado e escapou. Ele tinha o largo horizonte do mundo à sua espera. Tinha as árvores do bosque ao alcance de seus dedos. Tinha o vento sussurrando promessas em seus ouvidos. Alemão tinha tudo isso. Ele passara a vida tentando abrir aquele cadeado. Quando conseguiu, virou as costas. Em vez de mergulhar na liberdade, desconhecida e sem garantias, Alemão caminhou até o restaurante lotado de visitantes. Pegou uma cerveja e ficou bebericando no balcão. Os humanos fugiram apavorados.
    Por que fugiram?
    O macaco havia virado um homem. 
    O perturbador desta história real não é a semelhança entre homem e o macaco. Tudo isso é tão velho quanto Darwin. O aterrador é que, como homem, o macaco virou as costas para a liberdade. E foi ao bar beber uma.
   Um zoológico serve para muitas coisas, algumas delas edificantes. Mas um zoológico serve, principalmente, para que o homem tenha a chance de, diante da jaula do outro, certificar-se da sua liberdade. E da superioridade de sua espécie. Pode então voltar para o apartamento financiado em 15 anos satisfeito com sua vida. Abrir as grades da porta contente com seu molho de chaves e se aboletar no sofá em frente à TV. Acorda na segunda-feira feliz para o batente. Feliz por ser homem. E por ser livre.
A vida que ninguém vê - Eliane Brum

Texto completo aqui: O Cativeiro (por Eliane Brum)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

As pombas são mais humanas

Uma frase um fiasco, um frasco aberto de bobagens sem fim, um sim um pão. Os humanos hoje me parecem um amontoado de pele e pelos, todos iguais caminhando na mesmadireção, digressão do destino. Aqui tem muito de tudo e tudo fica a mesma coisa, nada se distingue num mundo desigual, é a verdade que falta o povo ver.
Esse meu pensamento é um lixo que não deve ser reciclado, quando muito vire adubo prararaterra, prararaquara. Eu adoeço das minhas doenças quando não tenho lotes do que fazer.

 
 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

CUIDADO

Deixa que vá no vão de gente que vai, não vão, pode ter certeza. A volta, a vó já dizia, é vasta e vazia.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Púrpura falta de opção

Dois minutos e eu nem vi. Olhei pro mosquito morto na parede há dias, voltei pra tela, um copo d'água e simples, passou. Dois minutos, um dia, mas já não me interessa esse tempo perdido, me interessa o perder e o ganhar. Se a gente não perdesse tempo a vida não seria um jogo, sabe bem a fome que sempre ganha vontade depois de um tempo. Se eu fechasse os olhos e, quem diria, nada acontecesse, e se depois, ainda assim tudo eu ganhasse. Essa moeda de troca de mão única que é o tempo, a quem pagamos? A quem devemos? Um dia, é certo, apagaremos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Diga-se da risada forçada.

Tudo limpo, pode olhar, dentes brancos, tênis novo.
Tudo novo, pode entrar, sala grande, ambientes climatizados.
Tudo certo, pode conferir, carro do ano, roupa da moda.
Ah, a felicidade alheia, parece tão fácil de conseguir, basta um único fator e fica tudo resolvido. A felicidade não gosta de muito questionamento, enche o saco rápido, muda de assunto, sai porta a fora dizendo que não sabe se volta pro jantar. Com brigas frequentes, fala em separação e eu digo "mas e as crianças, como é que ficam? Tudo isso que a gente construiu juntos", mas ela, resoluta, diz que tá cansada dessa história toda, que eu era muito diferente antes, depois de um tempo ficou impossível de conviver. Vou afogar as mágoas na tristeza que fica sempre aparecendo e me querendo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Não deixa o samba morrer

Acho que é por isso que dizem pra gente sonhar e aquele papo todo, o sonhar é o recheio do bolo, o sonho realizado é só a barriga cheia. Ter é tedioso, querer é totalmente excitante, deve ser culpa do instinto, sei que depois de conseguir vir morar em Porto Alegre, o grande sonho de uma vida, tudo se tornou como já era.

domingo, 17 de novembro de 2013

Percepções per capita.

Nos delimitamos a extremidades iguais no que diz respeito à percepção. Se não conhecemos, não percebemos, se conhecemos há muito tempo, também não percebemos. A mãe sempre me dizia que os índios, com a chegada dos portugueses, não conseguiram enxergar os navios a primeira instância, por justamente não saberem o que aquilo era ou significava, por nunca terem visto algo igual. É como enxergar algo totalmente fora do nosso conceito, o que é, óbvio, difícil de imaginar. Uma questão interessante que li certa vez era "Pense numa nova cor, diferente de todas as que você já conhece.", tentei e falhei, é impossível pensar em algo que eu já não conheça. Essa história dos índios pode ser só uma invenção, mas exemplifica a primeira parte da questão, quando não conhecemos, não percebemos. Esse conceito não é, de fato, universal, podendo haver algumas exceções, mas pensando no geral, acho que ele se aplica mesmo em casos onde o elemento em questão não seja totalmente desconhecido. As coisas e pessoas, logo que conhecemos, por mais que observemos, não possuímos conhecimento pra uma percepção completa, ficamos ativos pegando toda a informação possível. Parece óbvio isso tudo.
    Agora estava escovando os dentes e quando olhei no espelho percebi que saiam "ossos" de dentro da minha boca e que eu escovava eles sem sequer ligar. Quando terminei a escovação, olhei no espelho e percebi que o que a gente chama de boca, não passa de uma pele do avesso, que mostra uma parte interna do nosso corpo. Normal, todo mundo chega a essas conclusões uma vez ou outra, mas de tanto sabermos, conhecermos e vivenciarmos isso, deixamos de perceber o conceito dos dentes, por exemplo. A preocupação agora é se eles estão brancos e retos o suficiente. Uma foto com alguém sorrindo não nos dá medo ou receio por estarem saindo da boca da pessoa pedaços de cálcio em formatos retangulares, ou que a mesma boca que sorri é nada mais que um pedaço de carne exposta. O sorriso é um conceito de felicidade e nada mais. Esse exemplo do corpo é só mais um, pensando em coisas e pessoas, de novo, também chego a conclusão de que dá no mesmo. Depois de certo tempo as percepções vão cegando e a gente já vai enxergando só um conceito formado ao longo do tempo.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Arrefecer

Li "Banana Caturra R$ 1,49", entrei no armazém segurei uma das caixas com bananas e joguei com toda força no chão enquanto urrava "banana caturra, banana caturra", segurei outra e fiz o mesmo processo. Quando voltei a mim, apenas olhei para o dono do armazém que me olhou de volta.
    Entrando na Lopo, aquele sereno me arrebatou com vontade, olhei para as pessoas e elas passavam, passivas a tudo, serenas como a rua, percebi logo que eu também isso transparecia e foi o instante em que senti o ferro da jaula que carrego e que carrega a mim. Foi claro assim que vi que todo mundo fazia o mesmo, mas sem a sensação, a incomodação do ferro, fica mesmo difícil deixar o macaco irritado quando o mesmo está sendo alimentado com bananas caturra a R$ 1,49.
    Depois disso, todo o resto deixou de fazer sentido e eu só sentia o sol fermentando minha pele que já não se importava em procurar sombras. Com os olhos quase fechados caminhei pra casa sem nenhuma mudança aparente.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Deus não perdoa os pecados que manda cometer

Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem de minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado

Caim - José Saramago 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Digladia a mente.

Atroz a voz que vence, que vem, que vende longe, que vem de nada. Astuta mente estúpida entupida de opinião qualquer, não se aprochega pro mate, não mata ninguém, não nega negação nem diz que não. Liga no dia seguinte pra avisar o porquê de não ter ligado, se embaralha, disque denúncia, diz que não vai se repetir, disco arranhado, aranha cansada de arranhar , correta ela.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Escafedeu-se

A vida muda muito rápido, sem te dizer nada, trabalha friamente sem tu perceber e trama, como trama, tudo antes de tu virar e ver. Ela é o minuto que só muda quando tu desistiu de tentar ver mudar. A vida é isso ou nada disso, no fim das contas a gente nem percebe nada, vai perdendo os sentidos, sendo levado por uma constante inconstante.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Pouco

Cabes? Caibo. Mas é uma caixa tão pequena. Que diferença faz, a vida inteira sobrou espaço nos outros lugares que estive, de repente agora faça alguma diferença, pelo menos visualmente. Não gosto disso, ainda assim vais ficar desconfortável. O desconforto não é novidade, nem será o fim do mundo, onde antes eu cabia com folga, o desconforto era maior, pode ter certeza.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

domingo, 3 de novembro de 2013

Poste aqui

Faz um tempo eu venho desistindo aos poucos da forma de ser convencional, não exatamente por querer, mas por simplesmente acabar não cabendo, não sabendo escolher ou agir. Nessa exclusão de meios sobram rabos e restam folhas. Essa forma tangente de sair não me garantiu qualquer exclusividade, nem sentimento de unicidade, sequer assim satisfação. Esses pés que sobram do outro lado misturam as coisas e deixam tudo como se fosse uma inalcançável questão. Aos poucos eu vou cedendo de um lado pra outro, pra não sair do lugar  "acho que não vai dar, tô cansado demais, vou ver a vida a pé".

O Mal amado

Então, varrendo o pátio me deparo com uma lagartixa morta cercada de formigas garantindo seu alimento para as próximas semanas. Prontamente passei a vassoura por cima, enquanto isso uma música calma tocava ao fundo, escolha minha, In the fade. Tudo isso me permitindo uma reflexão qualquer sem muita prioridade quando de repente vejo que a serenidade que me cabia era completamente oposta ao caos que reinava lá embaixo. As formigas desesperadas vendo seu alimento e muitas a si mesmo indo embora, morrendo, simplesmente do nada, sem aviso. Ninguém avisou a elas que eu limparia ou que comer a lagartixa era errado, elas só pensavam no futuro, coitadas. Quanto mal causamos enquanto estamos agindo, simplesmente, normalmente? Limpar a casa é um mal, definitivamente.

sábado, 2 de novembro de 2013

Subterfúgio

Não há falta
há fogo fraco queimando vento
Mato seco, isolado, queimando ao sol do verão
Quem são e quem poderia ser?
Ninguém por completude, nada por fazer.
O problema é não haver problema demais.

domingo, 27 de outubro de 2013

Das sutilezas do dilúvio

Por trás de quem mora o segredo de estar bem? Físico e mental nunca satisfeitos, uma eterna discórdia. 2 jatos em cada narina/ 3 meses. 1 comprimido/noite/20 dias. O físico parece mais fácil de lidar, mas ele sempre se compadece do mental e vai junto.

Fechar sem salvar

"Com licença"

A arte tem um papel a desempenhar nessa manobra da mente sobre a qual, não por coincidência, a própria civilização está fundada, pois as avaliações pouco solidárias que fazemos de outras pessoas em geral são resultado de nada mais que o hábito sinistro de olhar para eles da maneira errada, através das lentes embaçadas pela distração, pela exaustão e pelo medo, o que nos cega para o fato de que são, na verdade e apesar de  mil diferenças, apenas versões alteradas de nós mesmos: seres frágeis, inseguros e imperfeitos que também desejam amor e têm uma necessidade urgente de perdão.

Religião para ateus - Alain de Botton

A vida

A vida é nada mais que um motor ligado misteriosamente, que não sabe exatamente o lado que deve correr, mas corre e luta sem saber por que. Quem me contou isso foi a barata na cozinha, correu, correu, por fim ainda escapou de uma chinelada teleguiada. A vida dentro dessa barata é a mesma minha, a luta dela pra seguir vivendo não tem a mínima explicação, assim como a minha, mas o caso dela é que ela não pensa além do instinto. Instinto, nada mais que o combustível da vida, mas e quem é esse cara? Por que diabos nos diz pra correr desse jeito? A vida da barata, cara ou barata, cara ou coroa, é só mais uma vida dentre tantas outras que se vão uma hora outra sem qualquer explicação do porquê do tanto correr.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

domingo, 20 de outubro de 2013

Perene

Irene by Rodrigo Amarante on Grooveshark

Sobreviveu ao ócio

Canso
Ganso n'água, manso
Ensopado até as penas do que não pertence

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2º ato

O primeiro deu errado.

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Comam do mais puro fel de seus anseios
Tudo que havia de bom já foi consumido pelo ego
Nego mas também provo, prova disso é isto
História pra boi dormir, e já está mesmo tarde.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Toujours la même chose.

Um sorriso falso, uma pessoa estranha, um passo em falso, um olhar desatento. A conversa folhada exaltando tudo que é meu, minha dor, minha glória. Hoje, do lado de fora, são todos iguais, se mostrando o que a priori não se deixava mostrar. Cada gesto maluco, atitude sem jeito, efeito ou manobra, tudo mostra um defeito igual. E o lado de dentro, bom espelho que é, sem ao menos perceber reflete, se tornando o que são se é que já não era.

Objetos sem objetivo, objeções obtusas, obter obter obter obter obter obter opter opoter o poder.

We're nothing but mirrors looking at other mirrors.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O vão

O vão da casa deixa o vento passar
a chuva também, mofa móveis, esfria a casa.
Cada vez que molha, o dono lembra de fechar o vão em vão,
porque, como de costume, o vão logo se abre.
Pelo vão se enxerga quase toda a casa.
O dono às vezes acha isso bom,
o vão deixa tudo mais natural,
o ar da manhã entra, a casa respira.
Mais uma vez, lá vai o dono consertar o vão,
fica a dúvida sobre quanto tempo vai durar.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ii. Como somos ensinados
1.
Reformar a educação universitária segundo os insights  obtidos da religião envolveria ajustar não apenas os currículos, mas também, e de maneira igualmente crucial, o modo como se ensina.
   Em seus métodos, o cristianismo tem desde o início sido guiado por uma simples mas essencial observação, que, não obstante, jamais causou qualquer impressão naqueles que comandam a educação secular: a facilidade com que esquecemos as coisas.
   Seus teólogos sabem que nossa alma sofre daquilo que os antigos filósofos gregos chamaram de akrasia, uma desconcertante tendência a saber o que deveríamos fazer combinada com uma persistente relutância em de fato fazer, seja devido à falta de força de vontade ou à distração. Todos temos consciência de que nos falta força para agir apropriadamente em nossa vida. O cristianismo representa a mente como um órgão indolente e inconstante, fácil de impressionar, mas sempre inclinado a alterar seu foco e deixar as responsabilidades de lado. Por conseguinte, a religião propõe que a questão central para a educação não é como neutralizar a ignorância - como sugerem os educadores seculares - mas como combater nossa relutância em agir de acordo com ideias que já compreendemos inteiramente em um nível teórico.

Religião para Ateus - Alain de Botton 
 

O vento carrega consigo o tempo, trazendo memórias, as nossas histórias, 
Marcas impressas, da vida passada, ausente, presente na pele, na mente
Ele guarda as nossas saudades,de friagens, mornas tardes de infâncias, 
As roupas, a música, o cheiro das comidas, a acolhida em abraços queridos
Sentar na varanda e sentir o vento, é sonhar com os sonhos já sonhados,
Voltar ao passado, viajar no espaço do tempo que um dia nos pertenceu
O vento não envelheceu, guardião de lembranças sem idade.
Contém em si tantos universos, tantas vidas, tantos sentimentos
E mesmo assim é leve, transitório, sem território, sem dono,
Produz aquilo que se propôs na criação
E nunca pára, nunca reclama, às vezes chora, grita,corre,
Sentindo talvez as angústias de tantos amores separados, dores, desejos frustrados
Saudades anônimas,
Alegrias sem fim de um filho nascido, de um desafio vencido
É o vento
Ele, que sem que ninguém perceba, nos transporta, transborda, transforma.

Antônia Esnarriaga de Souza 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

23 pares

Sou a mistura de dois seres diferentes do início ao fim, minha mãe uma mulher culta até onde sua criação permitiu que fosse, sentimental ao último, é o algodão no campo que ao menor passar do vento se mexe, sente. Ao mesmo tempo, uma mulher focada e inteligente, prática e rápida, no que também lhe foi permitido crescer nesse aspecto durante a vida. Ela escrevia, e ainda escreve às vezes, poesias lindas, textos complexos, sempre questionando a vida e buscando mais conhecimento. Meu pai, um homem lógico, alguém que a mãe sempre definiria como "frio e calculista!", de firmeza impecável, sério e simples, um homem que não reclama muito e que aprecia demais sua solidão. Por outro lado, o pai é piadista de primeira quando se sente seguro no ambiente, foi cantor e é amante da música latina, me fez crescer ouvindo Ráfaga entre outras bandas, me deu um violão ao mesmo tempo que me queria no quartel.
Eu sou a mistura de duas pessoas totalmente diferentes, se às vezes eu não me entendo, é justamente por eu ser metade de duas pessoas totalmente diferentes.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Amigo antigo amido de trigo.

Perca a pedra, prenda a presa, pise no freio.
O necessário é tão superestimado, tudo sentido falso, pré-criado, procriado em laboratório. Meu sabor enlatado, meu iogurte de morango aromatizado, que mundo é o real? Não este, não eu.

sábado, 28 de setembro de 2013

Le chat est noir

A chuva me toca
e me chuva
e eu chuvo
e ela chora
A chuva achava
e me chove
e eu choro
e ela curva
A chuva a chave
e mexia
e eu
chato
ignoro
.

sábado, 21 de setembro de 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Até eu.

Em nossos momentos mais arrogantes, o pecado do orgulho - ou superbia, na formulação em latim de Agostinho -  domina nossas personalidades e nos isola daqueles ao redor. Perdemos o interesse pelos outros quando tudo o que procuramos fazer é afirmar o quanto as coisas estão indo bem para nós, da mesma maneira que a amizade só tem chance de crescer quando ousamos compartilhar aquilo que tememos e lamentamos. O resto é mero exibicionismo.

Religião para Ateus -  Alain de Botton

domingo, 15 de setembro de 2013

Nem tudo eco mo pareces.

Deixa acumular, pra amanhã, pra mais tarde.
Segunda, sem falta, na quarta começo.
Mas deixa, tanto faz, essa louça amanhã de manhã eu lavo.
Esse quarto eu varro, esse banheiro eu limpo.
Essa conta eu já não paguei?

Gastei, vivi, me endividei.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Quem sois vós?

Dorme o pobre rapaz cansado, derrotado por mais um dia. Deitado como pode, deixado a esmo e mesmo assim dorme. O sol já vem lhe alcançando o pescoço e logo será forçado a acordar, a parada que abriga não consegue deter o calor intruso. Mais um dia vem aí, onde nem dormir é certo, pois esse colchão remendado a qualquer momento pode ser retirado, nisso ele não pensa, só dorme, não importa o que aconteça.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Como eu sou criança

08 de julho

Como a gente é criança! Quando não creditamos a um simples olhar! Como a gente é criança!
Tínhamos ido a Wahlheim. As senhoras saíram na frente e, durante o nosso passeio, pareceu-me ver nos olhos negros de Carlota... Eu sou um doido, perdoa-me... Tinhas de vê-los, esses olhos! Para ser breve, pois estou caindo de sono, observe que quando as mulheres subiram ao coche estavam em volta dele o jovem W..., Selstadt, Audran e eu. Junto ao estribo elas palravam com os rapagões que, por certo, se mostravam bastante levianos e alegres. Busquei os olhos de Carlota... Ah, eles passeavam de um rosto a outro! Mas a mim, a mim... A mim, o único que estava ali só por causa dela, eles não se dirigiam! Meu coração dizia a ela milhares de adeuses! E ela não me olhava! O coche arrancou e uma lágrima brincou em meus olhos. Seguia-a com o olhar! E eis que vi assomar na portinhola o penteado de Carlota, que se voltava para me ver... Ah! Seria para mim? Meu caro! Debato-me nessa incerteza! E ela é o meu consolo. Talvez tenha se voltado para me olhar! Talvez... Boa noite! Oh, como eu sou criança!

Os sofrimentos do Jovem Werther - Johann Wolfgang Goethe

domingo, 1 de setembro de 2013

Bom dia.

Uma cabeça vazia passou ontem, rolando de um lado a outro da rua, levada pelo vento que a televisão soprava. Se ao menos algum peso tivesse não tão fácil seria arrastada, mas lá vai ela, feliz ao perceber que não é solitária em sua jornada. Outras tantas rolam juntas ao vento que tranquilo comanda a expedição rumo a lugar nenhum.