terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Haver dá de ser

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco"

Memória de minhas putas tristes - Gabriel García Márquez


Nesse nosso mundo atual, onde toda a aparência vale mais do que a substância do que realmente se é e pensa, esse livro traz um personagem que, ao completar seus noventa anos, se apaixona e talvez por já ter a idade que tem e saber que não lhe resta tanta vida, se sente livre pra ser o que se é e dizer o que bem pensa. Ninguém é igual a ninguém, não sou nem penso do modo como ele descreve a si mesmo, mas também não sou tudo o que pareço e faço parecer, muito é conveniente social e quem negar isso só vai estar fazendo a sua própria aparência. Viver em sociedade é isso, submeter-se aos seus padrões pra sobreviver, viver uma vida inteira mentindo pra si e para os outros, ninguém disse que era fácil. Esse texto permite bastante julgamento na nossa cultura, algo que virou comum, o velho apontar o dedo, falar sem entender, sem saber, tirar as conclusões por si próprio. Eu entendo e acho que, já que somos criados pra isso, que façam, talvez em outra cultura isso fosse condenado, juntamente com a aparência e tudo mais. Às vezes eu entro na dança, às vezes sinto repulsa disso tudo, faz parte.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Acordei, saí na sacada e senti as dores da minha existência, pensando ser tudo que eu tinha, sozinho na minha solidão. Dez minutos depois, olhei pra mim como um mero vazio existencial, um egoísta ridículo, percebendo a proporção ínfima das minhas dificuldades. Como ficar alheio ao sofrimento alheio? Agora eu sei o que são as reais dores.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Amor te pede passagem

Assim, diminuindo fontes, aumentando sombreados, a vida discorre em pequenos erros de português, erros de viver. Mas que erros são se o errado não existe? Ah, mas não existe numa camada acima desta na qual nos encontramos, cá onde estamos existe sim, todo mundo sabe! ... e todo mundo julga, juízes que antes pensavam diferente, onde o crime era outra coisa que não essa ou aquela, uma questão de maquiagem judicial. Aqui a gente erra e adianta a morte, que no fim se trata do grande erro da vida, se ninguém morresse, quem seria o erro?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Lei Tura

Eu poderia fazer download de todos os livros que eu quisesse ler, mas a leitura não se limita a um único sentido. A visão, sozinha, pode nos fornecer o básico, o suficiente, mas sem o complemento essencial do tato e do olfato, vira algo superficial, quase como uma obrigação. Prefiro não achar e querer comprar o livro a baixar e ler em frente ao computador. E qualquer um pode dizer o contrário e vai estar correto.

Calhou de assim ser

Não há como fugir do conhecimento, a todo instante com ele temos contato, não é diferente comigo. Ultimamente tenho tido a oportunidade de aprender diversas coisas, seja por fruto da minha curiosidade ou pelo simples acaso. Descobrir, no sentido de tirar a camada protetora, a minha ignorância, mostrá-la a mim mesmo e mandá-la embora. Nisso tudo, se tiram as velhas conclusões, normalmente esquecidas com o passar do tempo, muito pouco eu sei, muito pouco ainda virei a saber. Ultimamente a cultura vem me chamando a atenção e assistindo um programa chamado Além Mar, tenho tido a oportunidade de conhecer os costumes dos demais povos do planeta colonizados por portugueses. Tudo é de um valor imenso do qual me incomoda não estar mentalmente preparado para comentar.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Tchau

Me engano pensando que pensar é engano, mas no fim das contas ando cansado de pensar, farto dos lugares por onde o pensamento me leva e das suposições que faz. Criando novas teorias vazias, sobre coisas sem importância. Cansei de escrever e de ler, vou dormir.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A manhã ser

A manhã azul escuro, fechada pra qualquer conversa, me deixa livre pro passeio sem compromisso, sem  muita reflexão, o frio que faz, que vem em minha direção, deixa tudo mais bonito, o caminho parece infinito e sem volta. Duas, três, quatro voltas e quase ninguém, a cidade me pertence tanto quanto minha respiração, solto as mãos do guidão e tenho a liberdade momentânea.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A solidão de ser o que se é.

Clemente

Como posso assim ficar parado, empossado de uma atitude não posta em prática, sem resposta por falta de ação. Há dias são ditas frases soltas, comida às moscas, olhares sem direção. Diriam ser, mas quem diria, já vem lá outro dia, assim como o esperado, desesperado pelo diferente, atento, presente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Gandaia das ondas

Por onde andam as ondas onde ontem mergulhei?
Onde ando ainda mergulhado, confuso, molhado.
Odiando ondas onde errei ou direi errado,
onde fui a nado, onde nada um dia serei.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Em pulso

"Ia Jesus por um caminho no campo quando sentiu fome, e vendo ao longe uma figueira com folhas, foi ver se nela encontraria alguma coisa, mas, ao chegar ao pé dela, não encontrou senão folhas, pois não era tempo de figos. Disse então, Nunca mais nascerá fruto de ti, e naquele mesmo instante secou a figueira. Disse Maria de Magdala, que com ele estava, Darás a quem precisar, não pedirás a quem não tiver. Arrependido, Jesus ordenou à figueira que ressuscitasse, mas ela estava morta."

todo mundo sabe de que livro é. Sinto saudades desde já.

Nada muda o futuro

Se encaminhava para mais um dia vazio, foi quando olhei pro relógio e percebi que tinha razão.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Diz o honesto

A presa presa pela presa do destino, apresentando resistência, foi questionada:
- A pressa impressa pressiona e apressa a presa?
- Evidente, visto que vidente não sou, sendo assim, quando te apresentas me apavora.
- Aprecio tua sinceridade, pero, no más, no te puedo ayudar.
Ao que o destino, nada flexível, fez o que tinha de fazer, sentenciando à pobre presa a prisão do esquecimento.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Coentro

A natureza não respeita teus planos.

Gosto do gosto que a tua boca deixa em mim.

Todo temporal necessita de uns primeiros pingos de chuva.

Será que é assim que se diz, que se fala, que se contradiz?

De mim não esperem nada pois me atraso com frequência.