segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O cometa passou

O barulho fervilha nos ouvidos alheios, atiçando os até então adormecidos sentidos de sobrevivência. Tão logo é dado início, já se faz generalizado. O banquete está pronto, um festival de latas abrindo, pacotes estalando e ele, o salgadinho croc croc regendo toda barulheira. Os dentes ao trabalho não saem do tom e marcham pela madrugada, triturando o que lhes vier pela frente.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Cativeiro

O Zoológico de Sapucaia do Sul abrigou um dia um macaco chamado Alemão. Em um domingo de sol, Alemão conseguiu abrir o cadeado e escapou. Ele tinha o largo horizonte do mundo à sua espera. Tinha as árvores do bosque ao alcance de seus dedos. Tinha o vento sussurrando promessas em seus ouvidos. Alemão tinha tudo isso. Ele passara a vida tentando abrir aquele cadeado. Quando conseguiu, virou as costas. Em vez de mergulhar na liberdade, desconhecida e sem garantias, Alemão caminhou até o restaurante lotado de visitantes. Pegou uma cerveja e ficou bebericando no balcão. Os humanos fugiram apavorados.
    Por que fugiram?
    O macaco havia virado um homem. 
    O perturbador desta história real não é a semelhança entre homem e o macaco. Tudo isso é tão velho quanto Darwin. O aterrador é que, como homem, o macaco virou as costas para a liberdade. E foi ao bar beber uma.
   Um zoológico serve para muitas coisas, algumas delas edificantes. Mas um zoológico serve, principalmente, para que o homem tenha a chance de, diante da jaula do outro, certificar-se da sua liberdade. E da superioridade de sua espécie. Pode então voltar para o apartamento financiado em 15 anos satisfeito com sua vida. Abrir as grades da porta contente com seu molho de chaves e se aboletar no sofá em frente à TV. Acorda na segunda-feira feliz para o batente. Feliz por ser homem. E por ser livre.
A vida que ninguém vê - Eliane Brum

Texto completo aqui: O Cativeiro (por Eliane Brum)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

As pombas são mais humanas

Uma frase um fiasco, um frasco aberto de bobagens sem fim, um sim um pão. Os humanos hoje me parecem um amontoado de pele e pelos, todos iguais caminhando na mesmadireção, digressão do destino. Aqui tem muito de tudo e tudo fica a mesma coisa, nada se distingue num mundo desigual, é a verdade que falta o povo ver.
Esse meu pensamento é um lixo que não deve ser reciclado, quando muito vire adubo prararaterra, prararaquara. Eu adoeço das minhas doenças quando não tenho lotes do que fazer.

 
 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

CUIDADO

Deixa que vá no vão de gente que vai, não vão, pode ter certeza. A volta, a vó já dizia, é vasta e vazia.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Púrpura falta de opção

Dois minutos e eu nem vi. Olhei pro mosquito morto na parede há dias, voltei pra tela, um copo d'água e simples, passou. Dois minutos, um dia, mas já não me interessa esse tempo perdido, me interessa o perder e o ganhar. Se a gente não perdesse tempo a vida não seria um jogo, sabe bem a fome que sempre ganha vontade depois de um tempo. Se eu fechasse os olhos e, quem diria, nada acontecesse, e se depois, ainda assim tudo eu ganhasse. Essa moeda de troca de mão única que é o tempo, a quem pagamos? A quem devemos? Um dia, é certo, apagaremos.