quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Quem sois que não te vejo?

A maçã que oxida elucida coisa nenhuma, apenas reage enquanto ao meio. Mas se eu quisesse distinguir ela das outras, dizer dela que foi minha e a forma como ela se tornou ação minha? Bom, aí teríamos de dizer que também não foi por exato mal, deixei ali após algumas mordidas, nem tudo é válido de sempre lembrar. Quando olhei novamente a encontrei assim, por maior conhecimento que eu tivesse, não poderia ter a certeza que assim ficaria e que não me deixaria mais morder.
A maçã que oxida elucida o vão do perder, indica a distração que leva à mudança no ambiente, talvez até o momento exato. Essa maçã é exigente e quer ser sempre primeira, o descuido é digno de pena, perdeu, vá buscar outra.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bananas de Pijamas

Bactérias, estão por toda parte e se reproduzem numa velocidade absurda. Um dos lugares em que vejo isso acontecer é na garrafa que uso para colocar e tomar água. De um dia para o outro, estando tampada, ela acaba sendo foco da proliferação desenfreada. Isso me faz criar uma rotina diária, todo dia chego e levo a garrafa até a copa para lavar, coloco um pouco de água, chacoalho, chacoalho e largo. Básico. Dia desses, como outro qualquer, fui fazer o processo e comecei automaticamente, sem me policiar sobre nada. Pensando em outra coisa qualquer, não dei pela situação da minha cara ou se o que eu mexia eram os braços ou o corpo todo. No meio daquela situação fora de mim, sinto a presença de alguém às minhas costas e quando fui conferir, BINGO, lá estava uma aluna de mestrado. Meio que sem saber o que fazer e percebendo que eu estava me mexendo todo e com a língua um pouco para fora da boca, tentei manter a naturalidade. Olhei pra ela, ri bastante sem graça e dei o lugar para que ela usasse, tentando transformar aquela situação na coisa mais normal possível. Saí da copa e pronto, passou, não podia fazer mais nada.
Assim como as bactérias se reproduzem em alta velocidade, o pensamento não fica pra trás, comecei a germinar o óbvio. Por que razão teria eu de entrar numa fantasia enquanto havia outra pessoa próxima a mim? Por que eu simplesmente não segui livre fazendo o movimento que eu estivesse fazendo? Afinal, esse sou eu sendo natural. Qual é o problema com a minha naturalidade que não deve ser expressa aos outros? Essa vestimenta invisível que usamos sem nem perceber e que sem ela é como se andássemos nus faz com que tudo entre em outra realidade, uma realidade "desnatural". Me pergunto em que momento isso aconteceu, eu digo, em que momento viramos essas pessoas eternamente vestidas? E por que razão? Provavelmente seja a mesma razão pela qual usamos roupas, o natural ofende, o natural já não pertence ao ser humano.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sigo cego, ego, não nego.

A crítica ardente cortou mais uma generalização ao meio. Às cegas apalpou pontes de plástico e ligou pontos perdidos. Fez real uma inverdade, do conceito breve à completa definição.

Me pego sendo ignorante e às vezes ignoro.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Em fé lhe cidade

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
 Poesia completa de Alberto Caeiro - Fernando Pessoa

Hipérbole

O forno fez silêncio enquanto entravamos na cozinha, explodiu o caos, fez negra a prataria. No prado molhado da chuva, silêncio não conhece, a bicharada livre esconde o que eu dizia. O dito Odete disse, ou dito ou vão ficar copiando na hora do recreio. Receio ter me equivocado aqui, cavucado na falta do sentido exigido pelo cliente exigente.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sanciona o que te abandona.

O rosto em fade out se desfazendo ao longo dos dias entre a luz do sol e a do monitor. A rotina em fade in vem chegando mansa enquanto a sombra não alcança mais um dia quente. Por costume o chão já me tem e a falta de ventilador é só um detalhe, o suor que sai de mim corre livre em busca da liberdade. A cobrança sem valor financeiro se acomoda na cabeça fazendo com que o peso a ser equilibrado machuque e a dor acompanhe a passagem das semanas. A saudade é o manjericão dos dias, traz gosto ao alimento antes insosso.

A vida às vezes é esperar pelo "não sei o que", pelo ventilador, a cama, acácia, a casa arrumada, o fim.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Errói

Eu não gosto de heróis. De mitos, só os da Antiguidade. Não gosto porque não acredito, porque acho pobre, porque acho chato. Se de perto ninguém é normal, de perto ninguém é herói. Essa mania de mitificar gente, alçar fulano ou beltrano ao Olimpo porque supostamente fez algo sobre-humano, empata a vida. Faz com que os supostamente pobres mortais se sintam exatamente isso: pobres mortais. Ou losers, na expressão do que a cultura americana tem de pior.
Um ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante do que o mais celebrado herói.

A vida que ninguém vê - Eliane Brum

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Um drama indisposto

Vivo da distância entre mim e eu. Vivo vago, desapego, pego, largo. Vivo da distração dos ouvidos, vidas vindas da chuva. Vivo do vazio que dá a falta, que falta faz. Vivo da saudade e do não alcançar, vivo do quase viver, quase chegar. Não sei viver enfim. Não sei chegar.