domingo, 22 de junho de 2014

Piso nas pegadas alheias

E de repente virei meu pai, como quem vira vinho tinto na camisa branca.
Não é fantástico isso? De um dia para o outro me percebi, olhei pra mim.
Na procura de uma brecha de solidão, de quietude, me vi meu pai.
Na frieza quanto ao resto quando o que importa é o eu, vi ele em mim.
Na manhã de domingo em que se espera que ninguém acorde.
Que o barulho não seja feito e que todos permaneçam em silêncio.
Não por mal, mas só por alguns instantes, para que eu me sinta só.
Para que eu me sinta único e meu, para que eu me sinta meu pai.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Erase

E a reza rasa tomou conta do meu ser
Seremos todos passado?
Ou apenas amassados no roupeiro?
Esquecidos em cima dos armários
apagados pelo escuro.
Questiono como as coisas somem
simples e rápidas
Um dia nossos corpos boiarão no mar do esquecimento, para que todos vejam e fujam com os olhos.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Resto em pizza

E então eu morri, com dois tiros no peito enquanto seguia pela Getúlio em direção à Barão. Nem sei de onde vieram, quais intenções tinham e os motivos pelos quais foram disparados. Não lembro, lembro só do que aconteceu antes disso, da situação que me abordava no caminho. De cabeça cheia e com a chuva aliada, não via nada, só caminhava querendo chegar em casa. O ônibus havia demorado mais que o comum pra chegar, talvez por conta da chuva, não sei. Sei que estava preocupado, estado que se mantem inalterado há um bom tempo. Tenho que escrever minha dissertação, entregar os trabalhos, montar uma apresentação, comer, comprar pão. Não deu tempo nem de chegar na padaria, me livrei de tudo antes, e agora que acabou parece tudo normal, tudo acaba quando a gente morre. Morrer é um soco tão grande na vida que logo de início a gente não percebe e segue preocupado. Acho que vou ter que morrer da morte pra ver se os fantasmas da vida finalmente me deixam em paz.