domingo, 22 de novembro de 2015

Label

Se forem ler no rótulo da minha embalagem, lá vai dizer assim:
Homem, branco, heterossexual, alegretense, gaúcho, brasileiro, mestre em ciência da computação, toca violão.
Talvez nem diga que eu toque violão.
O problema disso é que além de me resumir a um máximo de oito características, essas mesmas características criam uma expectativa muito maior do que sou.

Comecemos pelo primeiro aspecto, o homem com h maiúsculo. Por ser homem, carrego toda uma definição pronta de que tudo posso e nada temo, sou desbravador e conquistador. Isso engloba clássicas definições relacionadas a relacionamentos, por exemplo, pago a conta, tomo decisões, mando na casa, não dou a mínima para detalhes e sim problemas globais que realmente importam. A sensibilidade não existe em mim, logo, não vão me encontrar chorando por aí ou me sentindo psicologicamente enfraquecido, isso não existe e é coisa pra mulher.

Ser branco simplesmente me faz ser parte da classe "superior", que não é vista como bandido no primeiro instante. Ainda por cima, sou um pouco loiro, o que me encaixa num nível acima de qualquer suspeita. Não roubo, cheiro bem e tenho bons costumes, de mim não esperam qualquer comportamento alterado, sou discreto e gentil, um anjinho!

Heterossexual já é muito ligado a ser homem mas também garante a mim privilégios de não ser um pervertido homossexual. Sou comum como todos, gosto do sexo oposto e estou pronto pra ter uma família como reza a cartilha. Ser hetero me garantiu ter bem menos problemas no colégio e na sociedade em geral, ao mesmo tempo que, para manter esse título, preciso andar na linha, para qualquer instabilidade avistada vai ter sempre alguém pra gritar "bixa!". Por isso, sou direto, gosto é de mulher, porra, não me venham com esses papos de arte, artesanato e minúcias sentimentais, o que me interessa é mulher, futebol e rock 'n' roll, não gosto de nada colorido que possa ser confundido com esses "viadinhos".

Ser alegretense e gaúcho remete a quase a mesma coisa, a questão de Alegrete apenas me garante que sou mais gaúcho que o resto dos gaúchos e que chimarrão e churrasco eu sei fazer de olhos fechados. Provavelmente possa acrescentar que toda e qualquer lida do campo eu domino com facilidade, fui criado em cima dos cavalos, troteando por aí e dando gritos de "kibibiahuhul!". Ser gaúcho me garante ser superior às pessoas de outros estados do Brasil, claro, sou mais educado que qualquer paulista, mais inteligente que qualquer nordestino, mais bonito que todo mundo. Falando nisso, o RS tem as mulheres mais lindas, posso usar isso como argumento finalizador de qualquer discussão. Resumindo, por nascer aqui sou praticamente perfeito, defendo minhas tradições com unhas e dentes e amo este estado mesmo que ele seja uma merda.

Por outro lado, ser brasileiro, em contextos mais amplos, me dá uma desenvoltura maior, posso jogar com o jeitinho brasileiro, sou malandro, amo futebol e bunda, cachaça e outras palavras que os gringos aprendem para vir ao Brasil. Amo os EUA e, na verdade, qualquer outro país desenvolvido, porque qualquer um consegue ser melhor que o Brasil. Quero sair daqui o quanto antes, isso aqui não presta, desconheço essa gente que se chama brasileiro (isso engloba eu ser branco) e que se dizem meus conterrâneos. Por fim, amo praia, carnaval e cerveja e voto ou no PT ou no PSDB.

Ser mestre em ciência da computação, honestamente, é o que mais me tem pesado, essa característica vem acompanhada de uma outra, sou doutorando. Ser doutorando me garante um status tremendo, tenho 24 anos e, pare pra pensar, sou foda. Ser mestre em computação e estar no doutorado me garante saber tudo relacionado a computação, logo, pode me perguntar o que quiser, eu vou saber. Isso me permite ser um pouco arrogante já que não é todo mundo que tem esse título. Agora sou conhecido com "sênior" e por isso minhas responsabilidades são maiores, estou sempre a frente do meu grupo representando a todos, logo, erros não são permitidos. Um dos meus serviços é fazer com que tudo pareça difícil, ou seja, tenho que manter a imagem de que para chegar no doutorado foi preciso esforço extremo, noites mal dormidas, olheiras e dedicação integral, afinal, tenho que valorizar o que tenho. Sendo assim, ser mestre em computação é uma dádiva, todos me olham diferente, sou claramente superior a todos e meu conhecimento é ilimitado, podem me cobrar o que quiserem, agora que sou mestre tudo posso e nada temo.

Cansei de escrever na verdade, isso não faz muito o tipo doutorando homem que é perseverante e não desiste de nada, mas cansei mesmo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Não, sim, tô, nada.

Incriminado o tempo vago
Gloriosa ausência de tempo
Ter o que fazer, não precisa gostar
Mascar o tempo amargo
Não prestar atenção ao vento

O tato já é desnecessário, no fim sentir o que seja já é errado.
Tudo se aparenta e o que se sente é afogado no fundo do poço.
Estou louco, desvairado, meus sentimentos têm colete salva-vidas.

Não há necessidade em temer o avanço da robótica, robôs já somos e dos perigosos.
E se isso parece engraçado, frágil e medíocre, devem ser seus olhos robóticos fazendo a leitura da tela, condenando qualquer fragilidade, qualquer fraqueza, qualquer sentimento.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Dever

Não há como fugir da sombra. Estando na luz, a sombra aparece e lá fica, onde vai, onde pisa, aqui, ali. Não há como deixar a sombra em algum lugar, dar para alguém cuidar e fugir, nunca mais ver. A sombra a mim está ligada. Quanto mais me exponho à luz, maior ela fica e vai me dominando e eu vou virando só sombra.
Tenho vontade de fugir da luz, me trancar em algum lugar onde não haja claridade. Mas nesse ponto percebo que perdi e que virei de fato o escuro por completo. Retiro o que disse, não digo nada, a sombra é maior que eu e carregá-la é a minha sina. Derrotado, aceito a condição de cada vez mais sombra ter e mais sombra ser.