domingo, 13 de novembro de 2016

Problemas de primeiro mundo

Casa não é só cama.
Casa não é só chegar, se atirar e pronto, amanhã é outro dia, tudo de novo, é sair, bater a porta e tchau.
Não.
Casa é mais, é muito e pede como tal e também pedindo é igualmente ignorada.
"Nossa" casa normalmente não é muito nossa.
A rotina nos afasta de todos mas principalmente da casa.
Tudo vira um jogo de tempo, tempo a ganhar ou não perder e quem perde é a casa ou,  no caso, nós mesmos.
Falo por mim, não quero chegar e lavar a louça, varrer, limpar banheiro.
Não quero chegar e cozinhar, tô cansado, vai fazer sujeira, vou ter que limpar depois.
O chuveiro está pingando, não tem problema, eu deixo um balde ali, depois despejo no vaso.
Tudo se estende, nada se conserta.
E então, quando de fato tudo vira um caos, chamo alguém que limpe pra mim, que faça o trabalho "sujo".
Chamo um encanador que ajeite, não vou aprender a fazer isso podendo pagar.
Por que vou cozinhar se posso pedir comida? Rapidinho, chega quentinha, como e tá tudo certo.
Tudo pra que eu não perca meu tempo enquanto estiver em casa.
Pra que eu possa descansar apropriadamente, assistir alguma coisa que me deixe feliz, ler algo nesse tempo vago, aprender alguma coisa que me interesse.

Nesse ponto a cegueira já avançou pra onde queria. A casa não é nossa, a casa é só um endereço mas não é o que nós somos, é um lugar quase estranho. Fazer o básico não nos torna pertencentes e assim não vemos que a casa é como um ser vivo que se estende à gente, que necessita de tudo tanto quanto nós mesmos. Ignorar a casa é ignorar-mo-nos porque não chegamos ao ponto do questionamento do porquê não temos tempo pra casa. Não nos perguntamos por que faz tanto tempo que esse chuveiro está pingando. Só queremos soluções, como querem da gente quando não estamos em casa. Não interessa quanto isso vai custar, interessa que esteja pronto a tempo pra salvar um tempo e gerar dinheiro pra fugir da casa pra um lugar que não seja casa e que não tenha que ser limpo por mim e assim me fazer feliz com outras coisas que vejo todo mundo sendo.

Essa vida que levamos pode ser traduzida como uma sala com uma porta. Nos é ensinado que ao conseguirmos passar por essa porta seremos felizes. Então, fazemos de tudo para abri-la, mas quando entramos nesse novo lugar, percebemos que ele é menor que o anterior e não tem nada além de outra porta. Agora já sabemos o que fazer: abrir a porta. Novamente dispendemos o esforço que for pra abrir a porta e quando finalmente conseguimos, nos deparamos com um lugar muito semelhante ao anterior, porém, menor. Desconfiamos, mas nos dizem que é menor porque poucos chegam até aqui e que a felicidade já está logo ali, depois da próxima porta. A essa altura, as limitações físicas do lugar já começam a incomodar um pouco mas a gente segue. Depois da próxima porta, nenhuma novidade, outra sala menor com outra porta. O tamanho da sala já nos faz andar curvados, cansados de tanto abrirmos portas mas cada vez mais esperançosos pelo que nos espera do outro lado da porta e cada vez mais orgulhosos de termos chegado tão longe, onde tão poucos chegam. Por fim, morreremos espremidos e fatigados, exaustos, perdidos, sem nada de fato senão o orgulho do novo lugar raro e da esperança do logo ali.

domingo, 10 de julho de 2016

Acordado

Nada me sacia quando o tempo é meu.
O vento vaga, a luz apaga mas os olhos não.
Remo a favor da informação, quero acompanhá-la,
mas não consigo entender sequer um movimento seu.
Enquanto a ansiedade me domina, sou devagar devorado.
Não sei o que fazer diante do todo, sou um tolo engarrafado.
Logo um novo dia amanhece e eu sem nada ter feito me ajeito e parto.
Instantaneamente tudo volta e eu tudo quero pra uma próxima chance fazer direito, direto.
Depois de um tempo perdi a habilidade de aproveitar o tempo, de sentir e aceitar que ele se vá.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Nosso Norte é a Morte

Um lodo putrefato escorre da boca de alguém que ri e grita a morte do outro como prêmio.
Um ódio sem receio sai da ponta do dedo que aponta.
Nos olhos o reflexo do sangue tão esperado, que jorra e faz poça.
A satisfação de não enxergar qualquer semelhança no outro, de ser e sentir superior.
A paz comprada com sangue humano.
O prazer de comprar vira esporte, quer lei, quer permitir, quer chamar de justiça.
Com o tempo, quer que apareçam mais, pra reforçar o dito, pra matar, pra saborear.
Tudo vira vício e a vida vira nada.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Ponteiro

Foi-se o tempo, agora é fato.
Cortou como foice, agora desafeto.
A foto é um coice onde a cor esmaece.
A face era prece, a pressa era posse, a praça era medo.
O cabelo ralo, a carta, o quarto, agora tropeço.
A data é mais uma, a roupa ainda suja e eu já não pareço.
Por fim, por mim privado vou embora mais cedo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Soulspiro

I'm not ready to write or desire.
To look or close my eyes.
To find me a beast and accept it.
To cry in front of you.
To be weak and at the same time to be strong.
I'm just not ready,
yet.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Iniciação

Logo após pegar no sono sou acordado por um barulho familiar.
Ainda pensando no rápido sonho que se esvaía da memória, senti as pisadas no andar de cima ficarem cada vez mais fortes.
Era a segunda vez essa semana, mas dessa vez foi diferente, eu conseguia sentir como se participasse.
No teto, eu conseguia enxergar os pés das crianças andando em círculos como se em volta de um desenho.
Os gritos e conversas em uma língua distinta deixavam clara a presença de duas crianças e um adulto.
O ritual já devia ter começado há alguns minutos quando pude ver, duas crianças pintadas com listas brancas ao longo do corpo e no rosto levantando e baixando os braços enquanto entoavam uma cantiga.
Não me perceberam, não precisava, eu agora era um deles, entrei na dança e cantei como se eu de tudo soubesse.
Tiraram meu sangue e ofereceram à uma entidade, eu assisti minha mão ensanguentada enquanto minhas pálpebras cobriam meus olhos.

...

No dia seguinte, saindo para o trabalho, encontrei as crianças e o pai que as levava para a escola.
Cumprimentei como de costume e seguimos o dia.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Não!

- Está zangado comigo, Dom Juan? - perguntei, quando ele voltou. Pareceu ficar espantado com a minha pergunta. 
- Não! Nunca me zango! Nenhum ser humano pode fazer alguma coisa tão importante que mereça isso. A gente se zanga com as pessoas quando acha que seus atos são importantes. Não sinto mais isso.

A Erva do Diabo - Carlos Castaneda 
 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Chave Mestra

Divagando dia desses, me deparei com a lembrança de uma sensação estranha que eu costumava ter.
Acontecia sempre que eu entrava na casa de outras pessoas pela primeira vez.
Era um misto de tontura que dava a sensação de estar perdido por alguns segundos.
O interessante é que isso não acontecia em outros novos lugares senão dentro das casas dos outros.

Após lembrar da sensação cheguei à breve conclusão de que isso tudo fez parte da minha infância e que já não acontecia mais.
Porém, quando procurei uma situação atual onde isso não aconteceu, não consegui lembrar de nenhuma.
Percebi que toda essa divagação não se tratava da sensação que eu tinha, mas sim do fato de eu não entrar mais na casa dos outros.
E de fato, as relações que eu fui criando depois da infância foram se tornando cada vez mais superficiais ao ponto de se limitarem a um bar ou a uma conversa em um terceiro lugar que não seja a minha ou a outra casa.
A casa foi se tornando um lugar sagrado, selado e distante.

Enquanto escrevia lembrei de algumas situações em que entrei em outras casas mesmo depois de velho, foram poucas mas tenho a impressão de que a sensação seguiu acontecendo.
Não consigo chegar à conclusão de se isso tudo sou eu ou os outros.
Talvez seja tudo coisa da minha cabeça e da minha infância.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mergulho

Imersa num mundo só dela, ela dorme.
Fico intrigado em como suas pernas ganham estranhas posições, como se no fundo fosse tudo uma grande dança.
Ela é a bailarina, a estrela da peça.
Sua respiração profunda e serena me faz esquecer todo o resto e como o açúcar para a formiga, sou levado a ficar ao seu lado aguardando e observando encantado.
Dentre tantas posições, em nenhuma delas ela deixa de ser ela, consistente, mantém mesmo no mar mais profundo suas visões e crenças.
Se ao menos eu pudesse entrar e ver o que lá dentro acontece...
nesse mundo criado só pra ela, eu sou um espectador das sombras, as sombras mais lindas e encantadoras.
Pra mim é o suficiente, sei que quando acordar será toda minha outra vez.
No fim do espetáculo, ganho um rosto amassado e uma voz arrastada que grita meu nome.
Isso só pode ser um sonho.