domingo, 28 de fevereiro de 2016

Chave Mestra

Divagando dia desses, me deparei com a lembrança de uma sensação estranha que eu costumava ter.
Acontecia sempre que eu entrava na casa de outras pessoas pela primeira vez.
Era um misto de tontura que dava a sensação de estar perdido por alguns segundos.
O interessante é que isso não acontecia em outros novos lugares senão dentro das casas dos outros.

Após lembrar da sensação cheguei à breve conclusão de que isso tudo fez parte da minha infância e que já não acontecia mais.
Porém, quando procurei uma situação atual onde isso não aconteceu, não consegui lembrar de nenhuma.
Percebi que toda essa divagação não se tratava da sensação que eu tinha, mas sim do fato de eu não entrar mais na casa dos outros.
E de fato, as relações que eu fui criando depois da infância foram se tornando cada vez mais superficiais ao ponto de se limitarem a um bar ou a uma conversa em um terceiro lugar que não seja a minha ou a outra casa.
A casa foi se tornando um lugar sagrado, selado e distante.

Enquanto escrevia lembrei de algumas situações em que entrei em outras casas mesmo depois de velho, foram poucas mas tenho a impressão de que a sensação seguiu acontecendo.
Não consigo chegar à conclusão de se isso tudo sou eu ou os outros.
Talvez seja tudo coisa da minha cabeça e da minha infância.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mergulho

Imersa num mundo só dela, ela dorme.
Fico intrigado em como suas pernas ganham estranhas posições, como se no fundo fosse tudo uma grande dança.
Ela é a bailarina, a estrela da peça.
Sua respiração profunda e serena me faz esquecer todo o resto e como o açúcar para a formiga, sou levado a ficar ao seu lado aguardando e observando encantado.
Dentre tantas posições, em nenhuma delas ela deixa de ser ela, consistente, mantém mesmo no mar mais profundo suas visões e crenças.
Se ao menos eu pudesse entrar e ver o que lá dentro acontece...
nesse mundo criado só pra ela, eu sou um espectador das sombras, as sombras mais lindas e encantadoras.
Pra mim é o suficiente, sei que quando acordar será toda minha outra vez.
No fim do espetáculo, ganho um rosto amassado e uma voz arrastada que grita meu nome.
Isso só pode ser um sonho.